Carta Pastoral do Santo Sínodo da Igreja Ortodoxa Romena para o Domingo da Ortodoxia - 2025

Ao amado clero, à ordem monástica e aos fiéis cristãos ortodoxos do Patriarcado Romeno, Graça, misericórdia e paz da parte de Deus Pai, do Filho e do Espírito Santo, e da nossa parte, bênçãos episcopais! 

Reverendíssimos e Veneráveis Padres, amados irmãos e irmãs no Senhor, 

O primeiro domingo da Santa e Grande Quaresma, chamado Domingo da Ortodoxia, lembra-nos, todos os anos, das provações e das alegrias que a Igreja enfrentou ao longo da história para preservar a fé verdadeira e a sua unidade dogmática, canónica e litúrgica. De modo especial, este domingo recorda-nos o dia 11 de março de 843, quando, em Constantinopla, foi plenamente e definitivamente restaurado o culto dos santos ícones, e a vitória sobre a heresia iconoclasta foi também entendida como um triunfo da verdadeira fé sobre todas as heresias. 

 As disputas teológicas sobre a veneração dos santos ícones começaram no Império Bizantino durante o reinado do imperador Leão III Isáurio (717-741). Através de dois decretos imperiais, emitidos nos anos 726 e 730, impôs a luta contra os ícones como religião de estado. As controvérsias continuaram sob os imperadores Constantino V (741-775) e Leão IV (775-780), período em que a perseguição às imagens sagradas se intensificou e foram formulados os ensinamentos erróneos do iconoclasmo. 

 As disputas cristológicas sobre a veneração dos ícones levaram os imperadores iconoclastas a adotar medidas extremas contra as imagens sagradas, que foram destruídas, e contra aqueles que as veneravam, que foram torturados, presos, condenados ao exílio e até à morte. Muitos clérigos, monges e fiéis devotos dos santos ícones deram a vida pela fé verdadeira. 

Entre os defensores da Ortodoxia, destacou-se, nessa época, São João Damasceno (676-749). Ele enfatizou que a veneração é dirigida à pessoa representada na imagem, e não à matéria de que o ícone é feito: "Não me prostro diante da matéria, mas venero o Criador da matéria, o Criador que, por minha causa, Se fez matéria, aceitou habitar na matéria e realizou a minha salvação por meio da matéria." (1)

 A primeira fase das perseguições contra a veneração dos ícones durou até o reinado do imperador Constantino VI (780-797) e de sua mãe, a imperatriz Irene (752-802). Com o apoio do Patriarca Tarásio de Constantinopla (784-806), ela convocou, em Niceia, no ano 787, o VII Concílio Ecuménico, que restaurou a ortodoxia da veneração dos santos ícones. 

Neste Concílio, com base na Sagrada Escritura e na Santa Tradição, os Santos Padres condenaram a heresia iconoclasta e formularam a doutrina da veneração das imagens sagradas e das relíquias dos santos, esclarecendo que a honra dada ao ícone se transmite ao protótipo, e que aquele que venera um ícone está, na verdade, a prestar culto à pessoa representada nele. Eles demonstraram, com argumentos bíblicos, que quem contempla o ícone estabelece, através dele, uma relação pessoal com aquele que é representado: o ícone torna presente o arquétipo, pois serve como um meio de elevação do pensamento a Cristo e de comunhão com Ele; ao olhar para um ícone, invocamos, em oração, aquele que nele está representado. (2) 

Os Padres do VII Concílio Ecumênico de Niceia, inspirados pelo Espírito Santo e em conformidade com as doutrinas estabelecidas nos concílios ecuménicos anteriores, reafirmaram o ensino da Igreja sobre a veneração dos ícones e das relíquias sagradas, definindo e estabelecendo na decisão dogmática do Concílio o seguinte: "(Nós) preservamos inalteradas todas as tradições da Igreja, escritas ou não escritas, que nos foram transmitidas, entre elas está também a tradição da representação icónica através da pintura, em conformidade com a pregação evangélica, para afirmar que a encarnação de Deus, o Verbo, foi real e não apenas aparente (...). Seguindo o ensinamento inspirado por Deus dos nossos Santos Padres e a Tradição da Igreja universal, pois reconhecemos que nela habita o Espírito Santo, decidimos, com toda a exatidão e cuidado, que, assim como a venerável e vivificadora Cruz, também devem ser erguidos os santos e veneráveis ícones, seja através da pintura, do mosaico ou de qualquer outro material apropriado, nas igrejas de Deus, nos vasos sagrados e nas vestes litúrgicas, nas paredes e na madeira, em casas e ao longo dos caminhos; (nomeadamente) o ícone de Nosso Senhor e Deus e Salvador Jesus Cristo, a Santíssima Mãe de Deus, os anjos veneráveis e todos os santos e homens justos. Pois, quanto mais frequentemente forem vistos esses ícones, mais aqueles que os contemplam serão elevados a lembrar-se e a desejar os protótipos que representam, inclinando-se diante deles com beijo e veneração. Não, contudo, com a verdadeira adoração, que, segundo a nossa fé, é devida somente à natureza divina, mas com a mesma veneração dada à Cruz vivificadora, aos Santos Evangelhos e a outros objetos sagrados de culto; em honra dos santos ícones, queimamos incenso e acendemos velas, seguindo o piedoso costume dos antigos. Pois a veneração (prestada) ao ícone é transferida para o protótipo, e aquele que se prostra diante do ícone, adora a pessoa nele representada. (3) 

Apesar desta decisão do VII Concílio Ecuménico ter sido recebida pela Igreja, com a subida ao trono do imperador Leão V, o Arménio (813-820), iniciou-se uma nova fase iconoclasta, com perseguições contra os veneradores dos santos ícones. Esta fase terminou em 843, quando a imperatriz Teodora de Bizâncio (842-846), juntamente com o Patriarca Metódio, convocou um Concílio em Constantinopla, que, com base na Sagrada Escritura e nos escritos dos Santos Padres, restabeleceu a doutrina ortodoxa sobre a veneração dos ícones e confirmou a validade de todas as decisões dos sete Concílios Ecuménicos. Desde então, todos os anos, nós, cristãos ortodoxos, celebramos no primeiro Domingo da Grande Quaresma a vitória da verdadeira fé sobre todas as heresias, razão pela qual chamamos a este dia Domingo da Ortodoxia. 

Fiéis ortodoxos,

A Igreja compreendeu o papel pedagógico dos ícones, pois estes são guias para Cristo, a Fonte da santidade. Por isso, representou iconograficamente as imagens do Salvador, da Mãe de Deus, dos anjos, dos apóstolos e dos santos. Dessa forma, a Igreja destaca que a arte ortodoxa é uma arte sagrada. Como afirmou Leonid Uspensky, esta arte "deve, por um lado, transmitir as verdades dogmáticas e, por outro, comunicar a experiência vivida dessas verdades, a experiência espiritual dos santos – aquele cristianismo vivo em que dogma e vida se fundem". (4) Por essa razão, "a Igreja vê no ícone não apenas um aspeto da doutrina ortodoxa, mas a própria expressão da Ortodoxia em sua totalidade". (5) Os santos ícones "não são um mero apêndice da fé ortodoxa, mas exprimem-na plenamente, como uma confissão de fé, por meio da palavra e da imagem, pela oração diante do ícone de Cristo e dos Seus santos nele representados". (6) 

O fundamento da representação iconográfica do Senhor Cristo é a Sua Encarnação, conforme afirma São João Evangelista: "O Verbo fez-Se homem e veio habitar conosco. E nós contemplámos a Sua glória, a glória que possui como Filho Unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade" (João 1, 14). 

 A doutrina ortodoxa ensina que, por amor aos homens, o Filho e Verbo de Deus fez-Se Homem (João 3, 16), assumindo um corpo e uma forma humana, para que nós, os homens, pudéssemos tornar-nos filhos de Deus, por graça, participássemos da vida eterna e contemplássemos o rosto da Sua glória divina, assim como Ele Se revelou aos discípulos no Monte Tabor. A luz do ícone de Cristo e a luz dos ícones dos santos orientam-nos para a luz eterna da glória divina no Reino dos Céus, e a santidade do ícone convida-nos à santificação da nossa própria vida. 

Amados filhos espirituais, 

No contexto das comemorações do ano de 2025, para nós, romenos, o Domingo da Ortodoxia é uma ocasião de alegria e gratidão para com Deus pelos benefícios concedidos à nossa pátria, e também, um momento de reconhecimento pela grande multidão de santos ascetas e confessores da fé, que preservaram a tradição autêntica da fé tal como a receberam dos seus antepassados. 

O Domingo da Ortodoxia é a festa da fé verdadeira, manifestada em palavras e ações, por aqueles que guardam e testemunham a doutrina da fé, fundamento da verdadeira vida cristã e da obra de Cristo no mundo através da Igreja. Este dia convida-nos à unidade e comunhão com Deus e com o próximo, por meio de atos de caridade cristã.

Estas são a expressão concreta do amor ao próximo, os frutos da fé verdadeira, que brotam continuamente e têm como finalidade o auxílio aos que se encontram em dificuldades e sofrimentos, conforme ensina o Santo Apóstolo Paulo: "Não vos esqueçais de fazer o bem e de repartir com os outros, pois são esses os sacrifícios que agradam a Deus." (Hebreus 13, 16).

Por maiores que sejam os desafios e crises do mundo em que vivemos, temos o dever de permanecer firmes na verdadeira fé e nas boas obras, confiando em Deus, "Deus que nos dá tudo com abundância para nosso usufruto" (1 Timóteo 6, 17). Sejamos solidários na prática do bem, levando consolo aos necessitados, alívio aos doentes e compaixão aos que sofrem, ajudando os nossos irmãos com generosidade e um coração bondoso, assim como nos ensina Cristo, o Salvador do mundo. 

E também neste ano, dirigimo-nos aos sacerdotes e fiéis da nossa Santa Igreja com a exortação paternal de organizar, tanto neste domingo como nos domingos seguintes, a coleta para o Fundo Central Missionário, contribuindo cada um com a sua oferta, conforme dita o seu coração, sabendo bem que "Deus ama quem dá com alegria" (2 Coríntios 9, 7). Este Fundo destina-se a apoiar as comunidades romenas paroquiais ou monásticas com recursos materiais limitados, bem como os centros sociais dentro e fora do país, garantindo a continuidade e a conclusão de diversas obras missionárias. 

Sabemos que todo o dom perfeito vem do Pai das luzes, e por isso, na Divina Liturgia de São Basílio Magno, invocamos a misericórdia de Deus sobre aqueles que oferecem os seus dons e fazem o bem nas santas Igrejas, recordando-se dos pobres e pedindo ao Senhor que "os recompense com os Seus ricos e celestiais dons (...), que Se lembre de todo o Seu povo e derrame sobre todos a Sua abundante misericórdia, concedendo-lhes o cumprimento das suas súplicas para a salvação". (7) 

Confiantes de que também este ano manifestareis generosidade cristã e correspondereis ao nosso apelo nesta santa obra de caridade, oramos ao Deus Misericordioso para “que, tendo sempre e em tudo quanto vos é necessário, ainda vos sobre para as boas obras de todo o género." (2 Coríntios 9, 8), e que "A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós!" (2 Coríntios 13, 13). 


Referências: 

1. São João Damasceno, Contra os Iconoclastas, 1, 16, em "Os três tratados contra os iconoclastas", tradução, introdução e notas do Pr. Dumitru Fecioru, Editora do Instituto Bíblico e de Missão Ortodoxa, Bucareste, 2016, p. 65. 

2. Cf. As decisões dogmáticas dos Concílios Ecuménicos, Pr. Sorin Șelaru (coordenador), Viorel Coman, George Gherga, Editora Basilica, Bucareste, 2018, pp. 152-158, p. 535. 

3. As decisões dogmáticas dos Concílios Ecuménicos..., pp. 553-555. 

4. Leonid Uspensky, A Teologia da Iconografia, Editora Renașterea, Cluj-Napoca, 2012, p. 33. 

5. Leonid Uspensky, A Teologia da Iconografia..., p. 13. 

6. † Daniel, Patriarca da Igreja Ortodoxa Romena, O Evangelho da Glória de Cristo, Editora Basilica, Bucareste, 2023, p. 47. 

7. A Divina Liturgia de São Basílio, o Grande, em Liturghier, Editora do Instituto Bíblico e de Missão Ortodoxa, Bucareste, 2012, pp. 257-259.

(Tradução para português de Inês Dubovici)





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